Diário de sexta-feira

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Sexta-feira, 8 de abril de 2016

Tereza, Naná, dois Paulos e um Gato, nunca mais!

Tereza Rachel, a bela hebreia, era um deslumbramento para meus olhos de adolescente no palco do Teatro Municipal em Campina Grande (PB). A seu lado, pisando o tablado, nada mais nada menos que Paulo Autran. Com Jairo Arco e Flecha, os dois montavam um texto de Millor Fernandes e Flávio Rangel chamado Liberdade, liberdade, um clamor sobre a razão de minha vida de poeta, escritor e jornalista desde então. Eram os anos brabos do golpe militar de 1964, no proscênio aberto para os porões da ditadura cruel que torturou e matou na passagem dos anos 60 para os 70. Nunca mais cruzei com Jairo, apesar de ter lido suas críticas de teatro na Veja, em cuja redação trabalhavaDailor Varela, que morou em São Paulo na mesma época e na mesma casa que eu.

Mas o destino incerto e não sabido quis que Paulo e Tereza se tornassem dois amigos queridos por circunstâncias alheias ao teatro. Tivemos encontros esporádicos, mas inesquecíveis. Paulo era amigo de Juca de Oliveira, que me foi apresentado por Paulinho Pontes, o grande dramaturgo que salvou minha auto-estima ao provar, em 1969, que um homem feio podia ser sedutor. Nos debates do Teatro Casa Grande, combatia com palavras e gesto a ditadura, usando charme, talento, muita sensibilidade humanística e uma cultura enormes. As moças mais bonitas daquela geração o queriam por perto, mas ele era marido fiel de Bibi Ferreira, em cujo apartamento comíamos feijoada de madrugada. Seu irmão Ipojuca foi o último marido de Tereza, talento cênico que certa vez mereceu de Juca um elogio definitivo:

– Tereza Rachel foi a maior atriz trágica com quem contracenei.

E foi Juca quem me levou ao convívio de Paulo Autran. Nunca andei ao lado deles e da mulher deste, Karin Rodrigues, pelas ruas dos Jardins, como faziam os três todos os dias. Mas tive o privilégio de ouvir várias vezes a voz maravilhosa do ator mais aplaudido do Brasil.

O timbre clássico de Tereza também se destacava. Uma vez me ouviu dizer poemas de minha autoria no rádio e me repreendeu:

– Sua poesia é boa demais para ser desperdiçada em sua leitura. Da próxima vez, me chame. Eu virei e lerei.

Marcus Vinicius de Andrade gravou um CD em que li meus versos de As fugas do sol para a gravadora do CPC da Umes, tentando provar que ela estava errada. Mas a verdade é que nem mesmo o autor poderia ler tão bem um poema como ela o fazia. Visceral, temperamental, birrenta, Tereza Rachel faz uma falta danada na vida de meu irmão Ipojuca. E, por extensão, na minha. Da mesma forma que Paulo Autran…

…e como Naná Vasconcelos. Conheci Naná um pouco antes de conhecer Tereza. Foi numa noite a ser lembrada pela eternidade. aquela na Avenida Conde da Boa Vista, em Recife. No Teatro Popular do Nordeste, ele tocava seus tambores no show Memórias de dois cantadores, com Edir e Teca. Edir Lima seria Edy Star, estrela dos Dzi Croquetes, transformista-síntese da Praça Mauá depois dos cabarés rampeiros e antes do Museu do Futuro. Teca Calazans vive em Paris, casada com um produtor. E canta. Canta bem e sempre.

Naquela noite quente, conheci, de uma vez só Zélia e Ariano Suassuna, Ledinha e Hermilo Borba Filho, Edy Star, Teca, Geraldinho Azevedo, Carlos Fernando, Marcelo e Fernando Filizola (do Quinteto Violado), além da grande romancista e psicanalista pernambucana Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, que era menor de idade, mas, já então, tratava a cabeça agitadora de Jomard Muniz de Brito, amigo de seu irmão, Roberto Cavalcanti, autor do clássico da sociologia sertaneja, Coronel, coronéis, em parceria com Marcos Vilaça. Que noite, gente!

Infelizmente, não convivi tanto com Naná, seu sorriso maroto, matreiro e menino acompanhando um jeito inimitável de bater no couro dos atabaques e bongôs. Isso ocorreu ainda em 1969, quando morávamos no Rio e ele, numa noite em que tocava com Milton Nascimento, foi ouvido e contratado pelo saxofonista argentino Gato Barbieri, que o levou para a Europa para gravar com ele a trilha sonora de O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando e Maria Schneider.

Quis o mesmo destino que nos aproximou nos afastar para sempre, pois, nestes idos e vindos de março e abril, ela e eles partiram, sem jeito e sem volta: bem depois de Paulo, Naná; depois, Tereza; e, por fim, Gato, que nem sequer cheguei a conhecer. Que pena, pessoal!

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José Nêumanne Pinto

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